Perdidamente Apaixonado (25/07/2025)

 

            As vezes sinto que glamorizamos uma forma de vida muito ruim. A ideia de um indivíduo perdidamente apaixonado é algo lindo no papel, mas na verdade é horrível, tem coisa que com luz neon e uma música outrun faz parecer algo atemporal, pois também se pode imaginar sob luzes alógenas e com o som clássico do Jazz.

Um homem, barba malfeita, se dobra sobre o balcão de um bar, um cigarro recém aceso no cinzeiro, um negroni sem gelo na mão, em seu olhar há nada além de uma vida imaginaria com alguém que ele perdeu. O Don Juan moderno é uma figura mais triste que o esperado. Nunca li a história original do Don Juan, mas julgo que seja menos triste do que as visões que tenho de um ser romântico. Uma criatura romântica.

O homem que descrevi pode estar de sobretudo, de camisa social, de terno, de bermuda e chinelo. Ele pode estar de qualquer jeito, mas não está bem. Todos nós quando somos passionais estamos fadados a nos imaginar nesse estado, em um ponto em que cairmos vítimas dos piores instintos humanos para tampar um buraco que só algo que existe em nossa mente pode cobrir.

Mas quando imaginamos isso fora de um estado de paixão podemos ser seduzidos pela ideia de que isso é muito bonito. Não é bonito, mas nos parece bonito. A ideia de que alguém se destruiria para poder preencher o vazio que algo maior deixou é feia em conceito, mas chamativa na prática. Justiceiro, Max Payne, Blade Runner 2049, os detetives noires são chamativos pois se alimentam desse instinto autodestrutivo do ser humano, até o personagem de Bob Hoskins em Uma Cilada Para Roger Rabbit é uma criatura autodestrutiva. Entendemos que é ruim, mas amamos o que é ruim, por isso se juntam em massa para cantar em coral Boate Azul, recitam de cor Garçom, murmuram Você Me Vira A Cabeça.

Somos apaixonados, apreciamos o amor, até o que tem de ruim nele.

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