- Os Vermes Não Param! (23/04/2025 - 27/05/2025)

            Gritava a mulher em pânico, já que quanto mais ela limpava e recolhia as sujeiras mais larvas e pupas surgiam aos montes de maneira espontânea no chão azulejado de sua cozinha. Ela levantou todas as cadeiras, abriu todas as gavetas, revirou todos os lixos e fazendo isso procurou toda forma de podridão, qualquer espécie de cadáver de peçonhentos, de qualquer bife desperdiçado, de qualquer origem, e foi se livrando de tudo. Limpava e nada acontecia, varria, esfregava, passava pano, mas não conseguia ignorar o elefante formado de milhares de pequenos filhotes de insetos.

            - Vão entrar nas nossas comidas e vão nos devorar por dentro! Vão entrar nas nossas feridas e iram nos devorar por fora!

            BERROS de desespero que tentavam se disfarçar de raiva. Uma tentativa muito malfeita, qualquer um ao seu redor poderia facilmente perceber que ela estava temente por sua vida. O queixo tremendo, os olhos fundos, o rosto lacrimejado. Mais uma larva aparecia, e mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais a mulher começava a sumir dentro de seu próprio desespero.

Com o rosto coberto em lagrimas ela grita por ajuda que ela recebe de forma sarcástica e depreciativa de seu filho que ri enquanto lia notícias desimportantes em seu celular.

- Não é nada, relaxa, é só lavar.

Isso desperta algo, algo que não deveria ser despertado, uma determinação gutural, uma motivação irreal para cumprir seja qual for seu objetivo. Ela levantou e o olhou de cima para baixo mesmo sendo menor que ele, mas como se algo a deixasse mais alta, algo a levitasse, e só pede que ele saia. Ele saiu e tudo se volta ao melhor, as larvas param de andar, então ela pegou um inseticida, um que diz que nenhum inseto saí vivo, e passa diretamente acima de cada uma das criaturas, que se remoem e de alguma forma seus gritos impossíveis de serem escutados são ouvidos.

Um bradar coletivo que nem os mais fortes e bravos dos guerreiros aguentaria sem se arriar de medo. E então os filhotes começaram a rastejar até um ponto em que não tivesse nenhum rastro do veneno, procuraram qualquer ponto, por menor que fosse, mas a mulher estava determinada a acabar com essa ameaça peçonhenta, não havia ponto em que não tivesse um pingo de veneno. Mas toda a centena de larvas se uniu de uma maneira em que algumas morreram, mas a maioria sobreviveu, o veneno se diluiu, e os gritos estridentes continuaram, mais e mais fortes, cada vez mais potentes. Mas os gritos mudaram de tom, e então na janela fechada e selada da cozinha surgiu uma nuvem preta, uma aglomeração profana de moscas que batia na janela.

A mulher viu isso como a gota d’água, onde já se viu isso? Uma horda de insetos querendo salvar sua cria? Ela correu para onde ela guardava o óleo de soja e pegou um fosforo no caminho. A nuvem ficou mais volumosa, mais barulhenta. A mulher banhou no óleo todas as larvas que estavam no meio do piso da cozinha em uma linda pilha e acendeu o fosforo. Depois de dois giros naturais no ar, o fosforo caiu nos filhotes e agora o grito era indistinguível com um de dor, talvez fosse o ápice do desespero. Isso foi o necessário para a nuvem juntar suas forças e como um punho destruiu a janela e invadiu a cozinha. Cada uma das moscar voou de rasante na pilha para salvar uma larva, mas o resultado foi apenas chamas. Cada uma das moscar se tornou a voar sem uma criança e com suas asas em chamas. E das larvas para as moscas, para a cozinha para a casa, tudo se deu em chamas, mas a mulher sorria, finalmente.

- Os vermes pararam.

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